Ontem, o Congresso Nacional aprovou o fim da escala 6x1. O Senado votou a PEC em dois turnos, por 75 votos a 1, e ela segue para promulgação.
É uma conquista para milhões de trabalhadores, e eu reconheço isso sem rodeios.
Mas, enquanto o país comemora, eu repito a pergunta que fiz no primeiro texto desta série: e o médico bolsista?
Aprovou-se o direito ao descanso. Ninguém aprovou o direito ao vínculo.
O Estado que exige direitos, mas não os oferece
Na minha opinião, a resposta para a ausência desses direitos envolve três conveniências.
A primeira é econômica. Um programa baseado em bolsas evita os encargos de uma contratação celetista. O médico atende, o serviço funciona e a conta trabalhista fica menor.
A segunda é política. O médico ainda carrega a imagem de profissional privilegiado. Defender seus direitos não costuma produzir o mesmo apelo eleitoral que defender outras categorias. Só que o jovem médico que depende de uma bolsa para trabalhar no interior está muito distante da imagem do profissional rico, dono de consultório.
A terceira é a fragilidade de representação. Muitos bolsistas estão longe dos grandes centros, possuem vínculos temporários e dependem daquela renda. Questionar as condições do programa pode significar enfrentar uma insegurança que poucos estão dispostos a assumir.
É uma combinação conveniente: custo menor, pouca visibilidade política e profissionais com reduzido poder de negociação.
E o resultado aparece dentro do próprio serviço público. Na mesma unidade de saúde podem trabalhar médicos concursados, celetistas, contratados temporariamente e bolsistas, submetidos a regimes jurídicos diferentes e com proteções distintas.
A responsabilidade diante do paciente não diminui conforme o tipo de contrato. Mas os direitos, sim.
E não se pode dizer que nunca houve uma proposta diferente
Em 2019, o governo Bolsonaro criou o Médicos pelo Brasil, com tutores contratados pela CLT e um percurso que previa formação seguida de contratação formal para os profissionais aprovados nas etapas estabelecidas.
Era uma perspectiva de carreira, segurança e permanência. Uma esperança de valorização para o médico que trabalha na atenção primária.
Em 2025, no governo Lula, o programa foi incorporado à estrutura do Mais Médicos. A modalidade celetista permaneceu prevista, mas passou a integrar um programa mais amplo que também mantém a contratação por bolsa-formação.
Na minha avaliação, perdeu-se a identidade de uma proposta que colocava o vínculo formal no centro da trajetória profissional. O que deveria ser ampliado como caminho de valorização passou a conviver com a velha lógica da bolsa.
E enquanto políticos disputam quem defende mais o trabalhador, quase ninguém parece disposto a enfrentar essa contradição.
Por que o médico que atende uma comunidade inteira não merece uma carreira estruturada?
Por que o Estado exige responsabilidade profissional integral, mas não estabelece o vínculo empregatício como horizonte para todos esses médicos?
E por que a defesa dos direitos trabalhistas parece perder a força justamente quando a responsabilidade pelo modelo de contratação é do próprio governo?
Não estou defendendo privilégios para médicos. Estou questionando por que uma profissão indispensável à saúde pública deve aceitar como solução permanente aquilo que deveria ser uma etapa de formação.
O médico também é trabalhador.
E um país que diz valorizar o SUS precisa começar valorizando quem sustenta a assistência.
Este artigo é um texto de opinião da autora, escrito a partir da sua vivência como médica. Faz parte da série “O Médico Também é Trabalhador”, em 4 capítulos. A votação do Senado citada no texto ocorreu em 14/10/2026 (PEC 221/2019, 75 votos a 1 nos dois turnos), conforme o Senado Notícias.