Eu chamo de escravidão funcional.
O Brasil multiplicou faculdades de Medicina, ampliou vagas indiscriminadamente e permitiu que a formação médica se transformasse em um negócio bilionário, sem garantir, na mesma proporção, qualidade de ensino, vagas de residência, estrutura assistencial ou perspectivas de carreira.
Formar médicos virou negócio. Valorizar médicos deixou de ser prioridade.
O resultado é uma classe profissional cada vez mais numerosa, disputando oportunidades em um mercado que se torna progressivamente mais vulnerável à precarização.
E então surge o próprio Estado, oferecendo aquilo que apresenta como oportunidade.
Trabalhe para mim.
Atenda onde eu determinar. Cumpra sua carga horária. Assuma pacientes. Responda por diagnósticos, prescrições e condutas. Carregue toda a responsabilidade ética, civil e profissional que a Medicina exige.
Mas não espere os direitos de um empregado.
Sem vínculo empregatício.
Sem FGTS.
Sem 13º salário.
Em troca, uma bolsa-formação.
O mais perverso é perceber que o Estado participa das duas pontas desse processo: autoriza a expansão da formação médica e, diante de um mercado cada vez mais pressionado, oferece assistência profissional sob um modelo que dispensa as garantias trabalhistas de um contrato de emprego.
Criou-se a vulnerabilidade. Depois, institucionalizou-se a precariedade.
É uma adesão voluntária? Formalmente, sim. Mas até que ponto uma escolha é verdadeiramente livre quando as alternativas profissionais se tornam cada vez mais escassas ou precárias?
É isso que chamo de escravidão funcional.
Não estou equiparando essa realidade à escravidão histórica ou jurídica. Estou denunciando uma relação em que a responsabilidade é integral, a cobrança é permanente e a proteção trabalhista é limitada.
O médico tem CRM. Tem pacientes. Tem metas. Tem horários. Tem deveres. Tem responsabilidade por vidas.
Mas, quando chega a hora de reconhecer os direitos de um trabalhador, o Estado se lembra de que ele é apenas um bolsista.
E ainda apresenta isso como valorização profissional.
Eu chamo de precarização institucionalizada.
Este artigo é um texto de opinião da autora, escrito a partir da sua vivência como médica. Faz parte da série “O Médico Também é Trabalhador”, em 4 capítulos.