I. Eu estava lá
Sou médica.
Estive na linha de frente.
Vi paciente morrer. Vi colega adoecer. Vi hospital chegar ao limite.
Agora é época de eleição, e eu sei o que vai voltar: as mortes, a vacina, o ranking.
E um nome, repetido até virar reflexo:
JAIR MESSIAS BOLSONARO.
Você conhece cada frase que disseram que ele falou.
Agora responda, sem pesquisar:
qual foi a cobertura vacinal do Brasil?
Se você não sabe, o problema não nasceu em você. Alguém decidiu que você não precisava saber.
II. 17 de janeiro de 2021
“Bolsonaro atrasou a vacina.”
Quantas vezes você ouviu isso?
Agora olhe a data: 17 de janeiro de 2021.
Foi o dia em que a Anvisa autorizou o uso emergencial das primeiras vacinas.
E foi no mesmo dia que a vacinação começou.
O Canadá e os Estados Unidos começaram em dezembro. É verdade, e eu não escondo.
Mas o Brasil não deixou vacina parada esperando. A fila andou no minuto em que a autorização saiu.
Você ouviu essa explicação no Jornal Nacional?
Nem eu.
III. O número que ninguém colocou na tela
Os dados do Our World in Data, até agosto de 2024, com pelo menos uma dose:
BRASIL: 90,2%.
CANADÁ: cerca de 89,5%.
ESTADOS UNIDOS: 79,1%.
MÉDIA MUNDIAL: 70,7%.
Releia.
Passamos os Estados Unidos. Passamos a média do mundo. Ficamos à frente do Canadá.
Um país de mais de 200 milhões de habitantes, dimensões continentais, milhares de municípios, desigualdade regional e áreas que só se alcançam de barco.
Quem ouviu falar disso em horário nobre?
Ninguém.
Agora me diga: se uma emissora esquece um número desse enquanto repete uma frase por semanas, é descuido ou é escolha?
IV. O ranking é uma fraude de método
“O Brasil foi o pior do mundo.”
Perdemos centenas de milhares de brasileiros. Eu vi. Isso não se relativiza, e quem tenta é desonesto.
Mas ranking de mortes só vale se todos os países contaram do mesmo jeito.
Eles não contaram.
O Brasil tem Declaração de Óbito, sistema nacional de mortalidade e vigilância epidemiológica estruturada. Não é perfeito, mas é robusto. Nós contamos os nossos mortos.
A OMS estimou cerca de 14,9 milhões de mortes em excesso em 2020 e 2021. O número oficial de mortes por Covid era de cerca de 5,4 milhões.
Quase três vezes mais.
Quem registra melhor aparece pior. Quem registra mal aparece bem. E esse ranking foi mostrado a você como se fosse ciência, sem uma linha de ressalva.
V. A China
Agora o capítulo que o sistema mais evita.
Partido Comunista.
Controle estatal de toda informação pública.
Imprensa que não fiscaliza governo, porque não pode.
E, nas tabelas, uma das menores mortalidades registradas do planeta.
Um estudo no JAMA Network Open estimou cerca de 1,87 milhão de mortes em excesso, em pessoas com 30 anos ou mais, somente entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023.
Em dois meses.
Não são 1,87 milhão de mortes confirmadas por Covid. É uma estimativa de mortalidade acima do esperado, com incerteza. Mas é uma estimativa que demole a ideia de que a tabela oficial mostra a realidade.
E aqui vai a pergunta que o noticiário nunca fez:
por que o regime que esconde aparece como exemplo, e o país que mede aparece como vergonha?
VI. O sistema
Vou dizer o que é o sistema, porque você merece nome, e não neblina.
É a grande imprensa, os grupos políticos que a alimentam e a lógica que ambos compartilham: decidir o que você vai enxergar.
Não precisam mentir. É mais eficiente selecionar.
Uma frase presidencial vira dia inteiro de telejornal.
A comparação internacional vira rodapé.
O erro rende semanas. O resultado vira nota, quando vira.
Cada reportagem, sozinha, pode conter fato verdadeiro. Mas fato verdadeiro repetido numa só direção forma uma imagem falsa.
E essa imagem tem um centro, e esse centro é Jair Messias Bolsonaro.
Ele fiscalizado? Que fosse. Qualquer presidente deve ser.
Mas fiscalizar é mostrar tudo: o que erra e o que dá certo. Quem só mostra o que condena não está fiscalizando. Está acusando.
VII. “Bolsonaro matou 700 mil pessoas”
É a frase mais repetida desta eleição.
E é slogan, não epidemiologia.
Uma pandemia mundial matou milhões, e não só no Brasil. Houve escassez global, conhecimento científico mudando em tempo real, países ricos devastados e subnotificação gigantesca em metade do planeta.
Atribuir a tragédia inteira a um único homem é a forma mais confortável de não olhar para o resto: o mundo, os sistemas de saúde, e a cobertura que você consumiu.
Quem repete essa frase sem conferir não está informado. Está treinado.
VIII. A pergunta que dói
Você repetiu o ranking sem conferir.
Você decorou as frases e não decorou os números.
Você nunca perguntou como cada país registrou seus mortos.
Não estou te chamando de burro. Estou dizendo que alguém trabalhou muito para você não perguntar.
E funcionou.
Então confira agora. Abra o Our World in Data. Veja as datas. Compare os denominadores. Leia o artigo inteiro.
Faça a conta.
Eu estava dentro do hospital. Sei a distância entre o que vivemos e a história simples que ficou.
Talvez você não tenha sido enganado por uma grande mentira.
Foi por algo mais eficiente:
mostraram fatos verdadeiros e escolheram quais você veria.
Quanto da sua opinião é realmente sua?
Este artigo é um texto de opinião da autora, escrito a partir da sua vivência na linha de frente da pandemia. Dados citados: Our World in Data (cobertura vacinal com ao menos uma dose, até agosto de 2024); Organização Mundial da Saúde (mortes em excesso em 2020 e 2021); JAMA Network Open (mortes em excesso na China entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023).