Tem político que parece perder o sono preocupado com a escala 6x1.
Defende o trabalhador de manhã, à tarde e à noite. Na televisão, no palanque, nas redes sociais. Discursa sobre dignidade, proteção social e direitos trabalhistas.
Mas a defesa dos direitos parece ter uma exceção conveniente: o médico.
O mesmo Estado que discursa sobre valorização do trabalhador mantém médicos atendendo a população pelo “Mais Médicos” sem vínculo empregatício, sem FGTS e sem 13º salário.
E encontrou uma maneira curiosa de justificar isso.
Não chama de salário. Chama de bolsa.
Bolsa-formação.
Muda-se o nome da remuneração, muda-se a natureza jurídica do vínculo e desaparecem as garantias trabalhistas de um empregado. Mas as responsabilidades médicas continuam exatamente onde estavam.
O paciente não recebe uma consulta-formação.
O diagnóstico não é uma hipótese-formação.
E a responsabilidade por um erro médico certamente não é uma responsabilidade-formação.
O trabalho é real. A responsabilidade é real. A ausência de direitos trabalhistas também.
Sou médica. Conheço o plantão, o cansaço, a sobrecarga e o peso de decidir sobre a vida de alguém às três da manhã.
E me recuso a aceitar que o Estado transforme uma atividade assistencial de enorme responsabilidade em argumento para relativizar garantias trabalhistas.
O que me revolta não é a defesa do trabalhador. É a seletividade dessa defesa.
Porque, quando o assunto é a escala 6x1, o discurso é sobre dignidade. Quando o assunto é o médico do Mais Médicos, a resposta é burocrática:
“Não é emprego. É formação.”
E é assim que um discurso sobre direitos trabalhistas pode conviver com um contrato que não os oferece.
Afinal, o médico também é trabalhador. Ou só é trabalhador quem rende discurso eleitoral?
Este artigo é um texto de opinião da autora, escrito a partir da sua vivência como médica. Faz parte da série “O Médico Também é Trabalhador”, em 4 capítulos.