I. O começo: uma médica formada na certeza
Há vinte anos eu vesti o jaleco pela primeira vez. Aprendi medicina no interior de São Paulo, onde tudo parecia ter regra, limite e lógica. Cada convênio tinha seu hospital. Cada leito de UTI era disputado a peso de gravidade clínica, não de burocracia. Auditores apareciam, perguntavam, cobravam justificativa. Internar alguém era um ato quase solene: só entrava quem realmente precisava.
Eu não sabia que essa certeza tinha endereço.
II. A mudança: Brasília, a cidade que reescreve as regras
Quando cheguei ao Distrito Federal, esperava encontrar a mesma engrenagem, só que com CEP diferente. Em vez disso, encontrei um sistema paralelo, um Brasil dentro do Brasil, onde a lógica hospitalar obedecia a outras leis, não as da fisiologia, mas as do faturamento.
Lá, poucos hospitais têm convênio próprio. A maioria vive de credenciar planos de saúde, um por um, como quem coleciona chaves para abrir portas diferentes. E é nessa engrenagem que a contradição nasce: quanto mais leitos ocupados, mais sustentável o hospital. Quanto mais procedimentos, mais receita.
"A cama vazia virou o inimigo do balanço financeiro."
III. O choque: quando a gripe vira UTI
Foi então que vi o que nunca tinha visto. Infecção urinária internada. Tosse comum virando indicação de leito. Gripes sendo encaminhadas, por vezes, à terapia intensiva. Eu, treinada para reconhecer gravidade, olhava para aqueles prontuários e não reconhecia a doença que justificava a cama.
Perguntei-me, silenciosamente, com medo da própria pergunta: quem audita isso? Quem contém o descontrole? E, principalmente: quem paga essa conta no fim do mês?
Porque alguém sempre paga. O sistema de saúde suplementar não é infinito e cada internação desnecessária tem um preço que, mais cedo ou mais tarde, recai sobre o próprio usuário, em mensalidades que só sobem, em coberturas que só encolhem.
IV. A dúvida que não me deixa dormir
Mas há uma segunda pergunta, mais incômoda que a primeira, e que até hoje não consegui responder por completo: será que esse excesso, essa hipervalorização do "tratar", não acaba, por acidente, salvando quem seria negligenciado em outro lugar? Será que o paciente superinternado em Brasília não recebe, ainda que por vias tortas, um olhar mais atento do que o subdiagnosticado em sistemas mais escassos?
É uma contradição moral que não tem resposta fácil. De um lado, o excesso que sangra o sistema. Do outro, a possibilidade de que esse excesso, sem querer, também cuide.
V. O meio-termo existe: e eu já o vi funcionar
Depois de anos entre esses dois extremos, uma certeza sobrevive em mim, forjada especialmente na linha de frente do SUS paulista: o equilíbrio é possível. Quando o diagnóstico é preciso, quando a indicação é criteriosa, quando existe auditoria séria e compromisso técnico acima do financeiro, o cuidado se torna absoluto, nem de menos, nem de mais. Exatamente o necessário.
Essa é a medicina que me formou. E é a medicina que, mesmo diante do que vi na capital do país, ainda acredito ser possível reconstruir.
A pergunta que deixo não é sobre quem tem razão entre São Paulo e Brasília.
Por que ninguém, até hoje, resolveu, ou sequer explicou publicamente, essa distância absurda entre dois pedaços do mesmo sistema de saúde, sob a mesma bandeira, o mesmo país?
E enquanto essa resposta não vem, os leitos continuam cheios e ninguém pergunta, em voz alta, por quê.
Este artigo reflete a experiência profissional e a opinião pessoal da autora, formada em diferentes sistemas e regiões de saúde ao longo de sua carreira. Não representa avaliação institucional de nenhum hospital ou operadora citados de forma genérica no texto.